
quinta-feira, 17 de março de 2011
Doce.

quarta-feira, 16 de março de 2011
Furacão
Sempre fui completamente doente por tudo aquilo que, de algum modo, é alheio ao meu mundo. Basta eu não ter tido a oportunidade de viver algo para me interessar. Histórias. Vida. Impulso.
E foi assim que a conheci. Lembro-me de seu sorriso. Único. Sua voz tocante, berrada, sorrindo. Não era uma voz, e sim um instrumento musical que a cada dia se aperfeiçoava. Nunca ligou pro que diriam ou deixariam de dizer. Se falariam bem, se falariam mal, ela brigava, gritava, falava sem medo, assumia seus atos e suas jóias falsas. No riso, na dor, era um furacão.
E num domingo cinzento, com uma garoa fina, daquelas que molham tanto quanto uma chuva torrencial, ela se foi. Sem despedidas, ela partiu. Hoje, comovida - como ficaria se estivesse presente naquela manhã antiga - percebo que era hora da menina ir. Este planeta, parece não comportar a sensibilidade. Mas todos sabem que, como queria, virou uma estrela. Não uma qualquer, mas uma das mais importantes. E até hoje, quando ouço, seja nas manhãs, tardes ou noites, e mesmo após tanto tempo, vejo que ela ainda vive.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Oswald e eu.
É com oito anos que leio meu primeiro livro e me lembro até hoje, quando parava todas as tardes na janela do quarto e lia - com extrema dificuldade - a obra de Fernando Sabino. Lembro até hoje toda a história e os conflitos de Fernando, o personagem excentrico-quase-adolescente que passava por coisas que eu quase não entendia. Mas lia. E gostava.
Tempos depois, foi a vez de Mário de Andrade e o livro "Contos Novos". Toda a metáfora de Mário, passavam despercebida a singela pessoa que quase nove anos e sem atenção que eu era. E foi neste período, em que comecei a me interessar por história.
Os anos passam e me encontro com Mário - amigo tão íntimo quanto Drummond -na época do colegial. Só que desta vez, ele traz uma galera consigo. Galera a qual eu não nutria muito afeto. Em especial, Tarsilla - não sei, simplesmente não gosto! - e Oswald de Andrade.
Não sei porque, mas Oswald era extremamente insuportável p'ra mim. Ouvir a estúpida pronuncia do nome dele me causava calafrios e uma raiva impressionante. E tudo isso mudou quando notei que, pobre Oswald, também não se encaixava no grupo dos modernistas, apesar dos pesares.
O nosso grande divisor de águas foi o meu querido "Rei da Vela". A princípio, li com muito desgosto e por total obrigação. Entretanto, notava coisas na leitura que não tinha certeza se eram certas ou simples ideias de minha cabeça e, após conversar com um professor, ele me disse que eram verdades e, como sou extremamente chata, curiosa e questionadora, começou a contar-me como ocorreu a fatidica briga entre Oswald e Mario, que por coincidência do destino, possuiam o mesmo sobrenome.
Foi aí que meu olhar para ele mudou.
E tudo ocorreu após a semana de arte moderna. Villa Lobos, com o pé machucado, ouvira boatos de que Oswald teria zombado de seu estado físico e de sua apresentação, e na boêmia da noite paulista, o encontrou e foi tirar satisfação. De maneira simples, direta e sem constrangimento, Oswald riu e disse a seguinte frase: "Querido, Villa Lobos! Tu tocas divinamente; na verdade, quem disse tudo isso não foi este 'Andrade' que vos fala e sim, Mário."
Obviamente, Mário descobriu e dias depois, ao encontrar Oswald, atacou-o garrafadas e berros. E este seria o fim da relação entre os Andrades.
Muitos devem pensar que isso é extremamente estúpido. E talvez, seja mesmo. Mas foi ao ouvir tudo isso que comecei a mudar a visão que tinha sobre Oswald, que não concordava com ninguém e tinha suas próprias artimanhas e, cá entre nós, muita graça, para livrar-se das emboscadas da vida. Antropofagia, Oswald. Ele não conseguia ser comum. Pena, ninguém notou.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Com açúcar e com afeto
Na verdade, nunca me olhou. Seja por falta de tempo, lugar, espaço; mas o efetivo encontro nunca ocorrera. Ainda assim, tocou meu coração de maneira inigualável, deixando-me sedenta de uma sede que não sei explicar de onde ou como vem. Sede. Fome. Necessidades humanas jamais explicadas, mas necessárias para a simples sobrevivência.
Era eu quem olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça densa e suja, e por alguns instantes, uma tontura quase de embriaguez atingiu minha cabeça. Eu olhava-o e tentava me equilibrar.
'Às vezes, em outros sonhos, pensei que você é apenas
uma estatueta de bronze no canto de algum museu.
Talvez por isso sinta frio.'
O frio congelante diante da dificuldade de me manter em pé. Sensação efêmera. Será que teria gostado de escutar minhas sandices?
Brincas com o tempo sem dar-se conta da importância que ele tem. Ou talvez dando-se conta da importância, mas sem querer nada. E eu fico ali, rasgando-me. Serena. Incapaz. Imóvel diante de tudo, sem ter o que fazer a não ser esperar. Esperar o fim.
A simplicidade de fazer com que tudo pareça fácil atraia meu olhar para você. E em um processo doloroso, vou me apegando, sentindo, sofrendo.
Há vários anos nos víamos. Eu via, ao menos. Quase cem? Vá, é um número estupidamente ridículo. E pouco a pouco, compreendia que nossa amizade estava subordinada as coisas simples.
'Vem dar valor ao que é bom nessa vida
que é tolice viver por viver já é dia de
deixar p'ra trás, a dor e o tanto faz...'
E com o rosto colado na parede, ouço o vento bater lá fora. Silêncio. A respiração calma de alguém adormecido que acaba de se virar na cama, como que num sono confuso, inquieto. Assustador. E de repente, ver que sou eu ali, a dormir fez com que uma adaga quente transpassasse minha carne. A dor súbita de que quando você está prestes a morrer num sonho, automaticamente acorda.
Entre a respiração ofegante, o medo e a desconfiança do que é real e do que não é, tento buscar oxigênio.
Tocou-me. Entrou em minh'alma contaminando-a com uma melancólica tristeza alegre alaranjada de pôr-do-sol, que tenho muito orgulho de sentir. Agora sinto que sou mais parte do mundo que quero p'ra mim. Obrigada, Gabo.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Número Ímpar - uma tarde
Domando demônios - parte II
Seguindo sem ouvir e nem prestar atenção no que diziam.
Ninguém vai me dizer o que sentir e eu vou cantar uma canção pra mim.
O caminho novo totalmente desconhecido em alguns passos foi adquirindo cara de lar. Os pés seguiam sozinhos, sabiam p'ra onde ir e como chegar.
E como há muito não acontecia, encontrei aquela sensação aconchegante de 'bem estar'. Calmaria. A brisa de uma simples tarde.
O tempo passa correndo. Os motivos de sorrisos simples logo vem e vão e acendem tudo aquilo que há muito não sentia e na verdade, nem lembrava como era. Bem estar bem.
Um sorriso. Um beijo. Um abraço. Um aceno. Mais sorriso. O abraço apertado da saudade. Importância. Afeto.
Sim. Pessoas vão e vem, e isso é algo inevitável e que aprendemos com a vida. Na verdade, sempre aprendemos com a perca. Algumas (às vezes) nem sabemos que estão ali. Mas estão. E é isso que importa.
E em meio a gritos e hinos de toda uma vida, finalmente encontro de novo tudo aquilo que perdi no caminho. Um longo caminho. Tudo volta ali.
Vontade. Querer. Acreditar. Ser. Encontrar.
Abraços suados e sorrisos completos.
Demônio semi morto acostumado a estar comigo e eu com ele.
E as amarras vão se afrouxando aos poucos e o controle vai sendo retomado, embora não completo, aos poucos. O tudo. Gabo, querido. Tarefa cumprida. Vida. Sangue. Suor.
Que se a vida é amarga, o pouco doce que me diz, já me faz alguém feliz.
Me entregando a mundos que não mais farão parte de ninguém. Somente a mim. E o egoismo, de repente, se torna mais bonito. Exorcizar faz bem.
terça-feira, 1 de março de 2011
Domando demônios - parte I
A sujeira proporcionada pelo cigarro engana e de certo modo aquieta o demônio faminto e devorador que há dentro de mim. Mas o pior de tudo nem é isso; pior é o fato de eu ter me acostumado com ele aqui, alimentado apenas para que ele se acalme. Sensações fulgazes de uma vida tão perdida.
E eu lembro da primeira vez que aprendi a domar (meus) demônios. Foi numa tarde quente de novembro naquele lugar sujo que me trazia a sensação de lar. Lar. Apenas uma enganação de tudo aquilo que queremos e procuramos.
Apinéia. Alice.
E foi ali, naquela singela tarde de novembro em que eu vi tudo mudar e se transformar.
E veio o álcool. A poesia. Baudelaire. Drummond, tão querido. Kafka. Sergei. Caio. E tantos mais que tornam tudo mais completo. O tudo. O nada.
E de repente, descobri a verdade. A verdade que estar errado é na verdade, nunca estar errado; tudo que pensamos que é errado não passa de algo que implantaram em nossa cabeça.
Então, sem notar, aos poucos, me libertava das amarras que me faziam condenar-me tanto.
Mas o demônio dominador continua aqui. Inquieto. Sedento. Dominador dessa alma que parece não ter sossego. Porém, agora, já consigo domá-lo. Insistindo. Persistindo.
Pois, é Bentinho, realmente, tardes de novembro podem mudar vidas.