quarta-feira, 27 de abril de 2011

Simples, mente. Simplesmente.

O tempo passado, filtrado na memória e reproduzido no presente.

Caio F. Abreu



As pessoas vão-se tão depressa; vamos segurá-las.

Virginia Woolf





Olhava tudo a sua volta com extrema perplexidade e se perguntava como é que poderia alguém no mundo ser daquele modo. Calma e sossegada, do jeito que sempre fora, qualquer coisa que parecesse se distanciar um pouco disso já me causava profundo estranhamento. Mas não ela. Ela não me causava estranhamento, só uma vontade louca e súbita de...entender.



Pequena e graciosa, ela não parava. Simplesmente não parava, nem por um segundo que fosse. Durante os primeiros dias, imaginei que poderia ser pura excitação diante da novidade, do mundo novo em que se encontrava. Com o passar dos meses, notei o que era...na verdade, nada era, era simplesmente ela. Ela.



E talvez fosse isso que me cativasse tanto. De uma rapidez surpreendete, às vezes parecia não ser humana, mas sim um daqueles andróides super perfeitos vindos do futuro para tornar o mundo um lugar melhor e nos estudar, visando sempre melhorias.



Obssecada por números e por toda sua precisão, não sei como pode me aguentar até o outono. Mas apesar dessa aparência um tanto dura, seu coração era extremamente doce e sim, a menina pequena e obssessiva possuia um dos maiores corações que já tive a sorte de conhecer.



Em sua vigésima primeira primavera em um mês frio e maluco de outono, parei para me lembrar um pouco da pequena menina...e me dei conta de que, de fato, nunca nos perdemos uma da outra. Conversas sem nexo, um pouco de auto-ajuda e muitas, mas muitas risadas vieram a minha memória e de repente, sem que eu notasse, estava sorrindo. Porque tenho cada dia mais orgulho da pessoa que a menina-obssessiva-e-graciosa se torna, porque gosto e nutro um afeto e amor profundo por ela e porque...porque é ela e simplesmente ela e isso é tudo e já basta.



Todo amor que houver nesta vida à você, Rebeca, menina com nome de princesa, como diria a Rejana. Você será feliz, acredite! Mais do que pode imaginar.




Com amor,



Wendy

terça-feira, 19 de abril de 2011

Arrastando correntes

Sei que somos jovens e que tudo vai passar...

N. Altro


É esse gelo por dentro que eu não consigo entender.

Caio F.



Atravessou a rua como se fosse agosto, talvez porque este era o mês que, mesmo sem saber porque, sempre esperava. E de maneira rápida, correu por entre os carros da avenida, sem medo de morrer ou de que algo acontecesse...correu, desviou, respirou. Enfim, o ar.


Encostada no pequeno murou, parou e tentou aquecer as mãos umas nas outras de maneira rápida e suave, porque a sensação era de que o inverno chegara em pleno mês de março. São as águas de março fechando o verão...


Ao lado, o eterno tatuado com sorriso simpático. À frente as pessoas que corriam, apressadas, com rumo, sem rumo, desesperadas no caos que engolira aquilo que elas insistiam de chamar de vida. A vida é definitivamente uma ópera e vivê-la em doses homeopáticas não fazia o mínimo sentido que fosse. Era o que pensava.


Mas, a diferença entre o pensar e o fazer é o grande abismo que há. Abismo daqueles em que se ouve o grito da queda por minutos incessantes. De repente, tudo se perdeu em uma grande fumaça que tornaram o dia ainda mais acinzentado. Entrou no prédio e subiu. Porque tinha que subir. Porque chegara a hora. E mais uma vez, deixou-se levar pelo ritmo da voz, dentro da melodia monótona, angustiada, perplexa e repetitiva. Seguia seus instintos. E só.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Mais uma tarde

Cada época cria uma ideologia de que tem necessidade. Algumas pessoas não seguem e simplesmente vão contra a maré e nem se dão conta da importância que vão ter algum dia; ou talvez se deem, mas não se importam. Finjem não ligar. Às vezes dizer "deixa pra lá" cansa menos. A língua presa e o jeito doce (extremamente doce) não condiziam com o temperamente explosivo, descontrolado e completamente compulsivo. E assim era. Um misto de explosão com uma doce brisa calma, daquelas que bate no rosto e dá vontade de se deixar levar, sem nada pensar, apenas apreciar, sentir e sentir e sentir. Durou pouco, infelizmente. Foi embora antes que o sol pudesse enfim se pôr. Mas, de fato, jamais irá. Não por inteiro. Mais uma tarde pra levar o meu amor pra eternidade Meu amigo, por favor, me aguarde que a gente vai se encontrar E diante deste mundo careca e completamente careta sobreviverá gritando, berrando e espalhando a vontade de viver que tinha e teve até em seu último suspiro. Fechado, parado, sorriso, sereno. Essas são as imagens que guardarei deste que, efetivamente, nunca conheci, mas sinto ter estado perto da vida toda. A vida inteira. Ainda é cedo amor, mas começaste a conhecer a vida E já a anuncias a hora da partida, sem saber mesmo que rumo irás tomar O choro de todos aqueles que não conseguiram dizer o último adeus ao menino que sempre foi menino e que nunca deixará de existir.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Força

Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos.

Somente através das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento,

de que não estamos sozinhos.

Orson Welles

Os pequenos atos de cada dia fazem o desfazem o caráter.

Oscar Wilde


Foi a primeira pessoa que vi quando entrou. Alta e imponente, andou e sentou ao meu lado e com cara de poucos amigos, não disse uma palavra. Nem um pequeno sorriso que fosse. Nada. E, certamente, não foi ali que conversou, apesar de ter sido ali que as semelhanças apareceram.


Logo, descobri sua história.


Largara a faculdade por incompatibilidade. Na verdade, entrara já sem saber porque. Que bombas que nada, seu maior terror eram as crianças. Estes pequenos seres maldosos, mentirosos, pequenos e extremamente carismáticos a aterrorizavam até os ossos. Crianças. Acredito que ela terá doze. Doze pequenos seres correndo em volta desta mãe que mais parece uma amazona. Não em volume, mas em tamanho.


E eu, que perdera todo o sentido da palavra amizade em pouco tempo, (re)aprendia ali todo o seu sentido e significado. Sinceridade. Explosão. Bipolaridade. Ela era uma mistura estranha de tudo aquilo que...eu via. Sim, via em mim. E de uma forma muitíssimo esquisita, me sentia como num filme ou num sonho maluco daqueles em que você se vê tomando algumas atitudes e fazendo algumas coisas. Era ela. A parte que eu havia guardado dentro de mim e que manifestava aos poucos. E era real. Extremamente real e aos poucos, se tornava uma parte de mim.


E de tão rápido que o mundo gira, a menina quieta, séria que sentou-se por infortúnio do destino ao meu lado naquela manhã virou minha amiga. Sim, amiga. Não tenho medo de dizê-lo mais. Amiga daquelas que se sabe que pode contar até no breu da madrugada. Eu sabia que ela estaria lá se eu precisasse. Como sabia? Porque se ela precisasse, eu estaria lá, por ela. E como tudo na vida, já dizia Bentinho, devemos atar as duas pontas. Aquilo que fui com aquilo que seria...e parti.


Talvez até hoje ela não saiba, mas foi ela quem me fez forte para seguir, sem medo, outros caminhos escuros. Caminhos aqueles que a gente segue sem saber no que vai dar, sem saber o que esperar. Fui. Sem medo. Sem medo porque ela me ensinou assim, a não temer o desconhecido. Bravura. Força. Tudo dela que levei comigo. Em fato, a última vez que fiz o caminho, percebi que levei mais. Era uma parte dela que se apoderava de mim, de modo que eu podia. Poder. Saber. Vontade. Medo que eu não tinha mais.


E quando me falta algo, lembro da figura da menina quieta, aparentemente tímida, mas extremamente forte e assim, sigo em frente. Em seis meses, recuperei todas as partes de mim que faltavam. Especificamente 2 Rs e 2 Ts. Recuperei tudo. A fé (Tábata). A força (Tais). A doçura (Rejane). E a perseverança (Rebeca). Em fato, acho que nunca disse isso, mas queria que soubessem o quão elas me fizeram me (re)encontrar de novo. Hoje, pouco mais de um ano de toda essa mudança, devo agradecer.


Agradecer aquela quente manhã de fevereiro, em que a menina calada e séria sentou-se ao meu lado sem dizer uma palavra. Agradecer as tardes de conversas, aos abraços, risadas e sorrisos matutinos. Não apenas hoje agradeço, mas todos os dias. E a menina quieta, calada, séria e com olhar de falcão, me causa cada dia mais e mais e mais e mais orgulho.


Todo o amor, fé, felicidade e força. Muita força. Força daquela que você me passou e me ajudou a seguir em frente, sem temer a escuridão. Quando precisar, saiba que há alguém aqui, que mesmo longe, você pode contar. Te amo.



Com afeto,


Wendy Candido


São Paulo, 28 de março de 2011. 16h 45

Destino manifesto - a loucura

O sentido da lucidez nunca é o que agrada. A loucura amedronta, admira. Admirar. Daquela forma que traz medo e repulsa. O medo de enlouquecer por qualquer coisa que for faz com que você se prenda em um mundo qualquer e, prisioneiro, não possa mais se libertar. Abraça tua loucura antes que seja tarde demais. Abracei. Abracei como aquele que entrelaça o outro na despedida ou no reencontro. Como se nada mais houvesse. Como se a esperança tivesse partido e eu, apegada, tivesse isso como o tudo. Como quando se tem medo de perder. Ou pior: de ficar perdido. E o destino corre como o vento. Albert, Albert, o que é o destino, afinal? Deus não joga dados com o mundo. .É, quando o dramaturgo entra em cena a peça já está pronta. E pronta já estava. Talvez, sempre esteve, apenas não conseguia perceber com os olhos de mortais que tem medo de olhar e virar, de repente, uma estátua de sal. O medo que Ícaro não teve. Ícaro, não temo mais.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Doce.


Que o teu afeto me afetou é fato.
Caio Fernando Abreu



Suave como uma pluma e extremamente doce. Doce. Talvez essa fosse a melhor palavra que eu pudesse encontrar p'ra descrever aquela menina.

A primeira vez que a vi foi numa manhã qualquer em um lugar qualquer e, de imediato, achei que não nos daríamos bem. Mas o problema não era com ela. De meiguices, estava cansada; mas o pequeno sinal - que hoje interpreto assim - me mostrou que seria ao contrário. A mão.

Quem diria que, duas pessoas, de mundos diferentes, caminhos alternativos e extremamente opostas poderiam encontrar suas semelhanças no simples tamanho de sua mão. Mão. Aquilo que pode fazer gestos de carinho e ternura, mas também pode machucar.

E em tamanho, nossas mãos eram iguais. E se há algum momento em que pode-se dizer "tudo começou ali", eu digo "foi ali, aquele dia, aquela hora, aquele momento".

Piadas com o nome (claro) e futebol. Sim. Atrás daquela doçura, meiguice e encantamento, que é impossível fugir, descobre-se uma louca. Quase que fera. Ai daquele que atreva-se a falar de seu peixe. Peixe que estava destinada a ser. Desde o signo. Desde o sobrenome. Acasos do destino. Como diria o pai de Sancha, amiga de Capitu, esposa de Bentinho em Dom Casmurro "A vida tem mesmo destas semelhanças esquisitas". E eu, completamente entendida de história, política e futilidades, não entendia nada daquilo.

Quarta-feira. Quinta de manhã era o dia do aprendizado. E eu ouvia. Com gosto. Ouvia tudo que ela tinha a dizer sobre o jogo da noite anterior, jogadores e tudo mais. Aprendia.

Ela de mim, não sei se aprendeu muito. Talvez um pouco sobre a Segunda Guerra...talvez um pouco obre bipolaridade e tourette...talvez.

Seis meses. Cento e oitenta dias. Horas infinitas e absurdas. Foi o que passamos.

E o mesmo acaso do destino que nos fez encontrar ali, naquela segunda feira de verão, apenas unidas pelo acaso de ter as mãos com a mesma dimensão, tratou de separar-nos. E me fui.

Sinto. Falta, muita falta.

Das manhãs de quinta-feira. Dos trabalhos enlouquecidos. Da risada contagiante. Da maldade quase inocente, que cativa a todos que passem qualquer pequeno minuto ao lado dela. E mais da doçura de amizade que me proporcionou em poucos e singelos meses, os quais levo comigo. E lembro. Ah, sempre lembro.

Seja feliz, menina encantadora que praticamente saiu dos contos de fada!

O que houver de melhor nesse mundo é pouco p'ra tudo aquilo que você merece.



Com amor,


Wendy

quarta-feira, 16 de março de 2011

Furacão

A vida é breve, mas cabe nela muito mais
do que somos capazes de viver.

José Saramago


A gente não vê quando o vento se acaba...
Guimarães Rosa



Sempre fui completamente doente por tudo aquilo que, de algum modo, é alheio ao meu mundo. Basta eu não ter tido a oportunidade de viver algo para me interessar. Histórias. Vida. Impulso.

E foi assim que a conheci. Lembro-me de seu sorriso. Único. Sua voz tocante, berrada, sorrindo. Não era uma voz, e sim um instrumento musical que a cada dia se aperfeiçoava. Nunca ligou pro que diriam ou deixariam de dizer. Se falariam bem, se falariam mal, ela brigava, gritava, falava sem medo, assumia seus atos e suas jóias falsas. No riso, na dor, era um furacão.

E num domingo cinzento, com uma garoa fina, daquelas que molham tanto quanto uma chuva torrencial, ela se foi. Sem despedidas, ela partiu. Hoje, comovida - como ficaria se estivesse presente naquela manhã antiga - percebo que era hora da menina ir. Este planeta, parece não comportar a sensibilidade. Mas todos sabem que, como queria, virou uma estrela. Não uma qualquer, mas uma das mais importantes. E até hoje, quando ouço, seja nas manhãs, tardes ou noites, e mesmo após tanto tempo, vejo que ela ainda vive.