sexta-feira, 5 de novembro de 2010

uma orelha envolta de um pano vermelho


As suas mãos me acenam, não parecem
ter morrido; cheia de presentes, caixas coloridas(...)
Vou correndo, vou agora, resgatar o meu amor
(Cazuza)

Um grito fino que estremeceu até as paredes do inferno. Grito profundo. Lágrimas de ferro. Ele a havia perdido para sempre; para todo o sempre...Sua visão se tornava ofuscada e aos poucos, a figura que representava sua vidae toda sua felicidade se perdia no vento.
Agora, essa era a única cena que vinha em sua mente
: o grito, o fim, o grito, a volta.
Em meio a cantos, enquanto seus membros são dilacerados, ele sentia uma alegria: afinal, não era o fim.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

que vá

Como é que eu podia saber que
aquelas rosas eram carnívoras?
(Caio F. Abreu)


Quando Dafne finalmente se jogou nos braços de Apolo, ela morreu queimada.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ao que é bom nesta vida

Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés no chão.
Sou sempre eu mesma,
mas com certeza não serei a mesma pra sempre.
(Clarice Lispector)




Tudo mudou
O que foi que aconteceu
que de repente acordamos nesses dias?
Ainda posso sentir o sabor
do que a gente perdeu.
E ainda penso em você, acredita?

Vem dar valor ao que é bom nessa vida
que é tolice viver por viver,
e já é dia de deixar pra trás a dor e o "tanto faz".
É cedo ainda.

Fomos tolos e egoístas pra crescer.
Crescer sem alegria.

Dizer "pra sempre" é bem menos
do que sentir na carne querer de verdade
E tem coisas que não vão sumir, você sabe
Tem um lugar em mim que é só teu
e nada vai mudar porque é meu.
Mesmo que a gente deixe errado
a que a gente escolheu.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

morte...





E como quem sai de um enterro
Cheguei e coloquei toda a roupa pra lavar.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

balanço

Eu era como uma criança em um balanço, tomada de um frio na barriga que me fazia querer parar, descer, desistir; ao mesmo tempo em que me impelia a continuar de todo jeito. E era sempre assim. Uma angústia que só se repetia enquanto o balanço descia - e que era esquecida logo que ele voltasse a subir. No entanto, não me preocupava descer do balanço, porque sabia que ele continuaria ali, e que sempre haveria muitos balanços no mundo.
Saí da escola, então. Deixei o antigo balanço para subir em outros - maiores, coloridos, fascinantes. Por muito tempo, ocupei-me com aquela sensação de paixão e pavor, sem dar conta de que era ela que me prendia à vida (e não o brinquedo em si).

Até que um dia me cansei do balanço e segui em busca de um novo tormento.

Amei, enfim.

Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou

domingo, 31 de outubro de 2010

Caixinha de presentes

- Uma vitória louca, uma vitória doente. Não era amor. Aquilo era solidão e loucura, podridão e morte. Não era um caso de amor. Amor não tem nada a ver com isso. Ela era uma parasita. Ela o matou porque era uma parasita. Porque não conseguia viver sozinha. Ela o sugou como um vampiro, até a última gota, para que pudesse exibir ao mundo aquelas flores roxas e amarelas. Aquelas flores imundas. Aquelas flores nojentas. Amor não mata. Não destrói, não é assim. Aquilo era outra coisa. Aquilo é ódio.

Nessa eternidade em que
as cervejas vem e vão,
e as histórias passam conosco ou por nós,
nós, almas machucadas, as vezes falamos muito,
as vezes não falamos nada,
mas na maioria das vezes que isso acontece
eu me pergunto
se é enfim o fim dessa maldita busca.
Queria muito que fosse.
Sempre quero.
Me abraça então...
Quero um pouco de paz.